O governo dos Estados Unidos elevou drasticamente o tom na disputa comercial com o Brasil ao anunciar a proposta de uma nova sobretaxa de 12,5% sobre os produtos brasileiros. O anúncio ocorre após uma investigação conduzida pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluir que o Brasil falha em manter mecanismos eficazes para impedir a circulação de mercadorias fabricadas por meio de trabalho forçado em cadeias produtivas globais.
Essa nova barreira econômica surge em um momento de extrema sensibilidade diplomática, sendo apresentada apenas um dia após Washington chocar o mercado com o anúncio de outra tarifa, de 25%, também direcionada ao mercado brasileiro. Ambas as sanções se fundamentam juridicamente na Seção 301 da Lei de Comércio americana de 1974. A Casa Branca ainda não esclareceu se as penalidades serão aplicadas de forma cumulativa, cenário que causaria um impacto devastador para o setor exportador nacional.
O argumento de Washington e a divisão dos blocos de risco
De acordo com o relatório emitido pelas autoridades americanas, o foco da acusação não é a fiscalização do trabalho análogo à escravidão dentro do território brasileiro, mas sim a suposta incapacidade do país em monitorar e barrar a entrada de insumos e produtos estrangeiros produzidos sob condições ilegais. Na visão de Jamieson Greer, representante do USTR, essa fragilidade aduaneira cria uma vantagem artificial de custos que prejudica a competitividade das empresas e dos trabalhadores norte-americanos.
A investigação dividiu os parceiros globais em categorias de risco. Blocos considerados mais protegidos e com sistemas parcialmente eficazes, como a União Europeia, o México e o Canadá, receberam uma proposta de taxação menor, fixada em 10%. O Brasil acabou penalizado no grupo de maior gravidade pela suposta falta de barreiras legais robustas contra o ingresso dessas mercadorias. Curiosamente, o próprio documento americano pondera e reconhece o valor de ferramentas brasileiras de controle interno, citando a eficiência da “lista suja” do trabalho escravo no monitoramento doméstico.
Etapas de negociação e os reflexos na economia regional
Apesar do forte impacto do anúncio, as sanções econômicas ainda não começaram a valer. O governo dos Estados Unidos abriu um cronograma oficial de negociações, permitindo que empresas e representantes interessados se inscrevam até o dia 22 de junho para participar das discussões. Os países afetados pelo pacote de tarifas terão até o dia 6 de julho para protocolar suas defesas por escrito, antecedendo uma grande audiência pública marcada para o dia 7 de julho, data em que o martelo será batido de forma definitiva.
Essa nova cobrança amplia o mal-estar gerado pela tarifa de 25% anunciada no início da semana, que acusava o Brasil de adotar práticas discriminatórias contra os interesses dos Estados Unidos, mencionando a taxação de 18% sobre o etanol americano e até barreiras competitivas que o sistema PIX traria para empresas financeiras dos EUA. No entanto, para estados com forte apelo agroindustrial, como Mato Grosso do Sul, o primeiro desenho das medidas trouxe um alívio temporário, já que commodities vitais como carne bovina, celulose e ferro-gusa foram poupadas da lista inicial de restrições.

