Populações de peixes e plantas aquáticas têm diminuído drasticamente nos últimos 15 anos devido a impactos ambientais silenciosos na região.
A biodiversidade dos rios de Bonito e da Serra da Bodoquena enfrenta um processo contínuo de redução de espécies de peixes e plantas aquáticas que vem sendo registrado nos últimos 15 anos. Embora pesquisadores apontem dificuldades para estabelecer um vínculo causal direto e definitivo sobre a origem dessas perdas, o desaparecimento dessas populações sinaliza problemas ambientais invisíveis para a maioria dos visitantes, causados por transformações na paisagem e no uso da terra ao redor dos recursos hídricos.
O sumiço de grandes predadores como pintados, cacharas e jaús, que antes eram vistos com facilidade em passeios na região do Rio da Prata, começou a ser notado há uma década e meia. Mais recentemente, entre 2016 e 2017, os pesquisadores deixaram de registrar as populações de pacus nas partes média e alta do mesmo rio.
De acordo com o biólogo José Sabino, doutor em Ecologia, o desaparecimento do pacu afeta tanto o equilíbrio ambiental quanto a experiência dos turistas, que frequentemente questionam a ausência do animal que viam em viagens anteriores. Além da fauna, a cobertura de plantas aquáticas diminuiu em diversos pontos das águas da região, cenário que já foi documentado por meio de imagens aéreas capturadas por drones.
Apesar de não haver comprovações científicas definitivas até o momento, há fortes indícios de que essa redução esteja associada à presença de defensivos agrícolas utilizados em lavouras vizinhas, que acabam carregados para o leito dos rios. Outro fator que prejudica os ecossistemas é o assoreamento provocado pela erosão do solo, que deposita sedimentos na areia do leito e sufoca o habitat de pequenos organismos.
Segundo Sabino, essas mudanças configuram um processo chamado de “simplificação biológica”, em que o cenário permanece visualmente bonito na superfície, mas perde em complexidade e na capacidade de se autorregular. Com o desaparecimento de peixes frugívoros de grande porte como o pacu, funções vitais como a dispersão de sementes deixam de ocorrer, interrompendo a recomposição natural de matas ciliares e áreas alagadas.
O biólogo explica que as alterações na abundância e no comportamento da fauna revelam crises ambientais antes mesmo de qualquer outro indicador químico ou físico da água apontar anormalidades. É uma erosão silenciosa que acontece debaixo d’água e longe do olhar da maioria das pessoas.
O cenário expõe a necessidade urgente de alinhar os setores que dividem o uso do mesmo patrimônio natural na região, como empresários do turismo e proprietários rurais. Conforme a análise técnica da área, os recursos financeiros gerados pelo ecoturismo raramente retornam para subsidiar ações de conservação dos rios e matas, o que coloca em risco a sustentabilidade ecológica e econômica do próprio município no longo prazo.

