Secretário-geral propõe “Compromisso de Segurança Infantil” e alerta para a concentração do poder computacional e o risco de uma nova “tirania digital”.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, alertou nesta segunda-feira (6) que a Inteligência Artificial (IA) está se desenvolvendo em uma velocidade superior à capacidade humana de acompanhamento. Durante a abertura do Diálogo Global sobre Governança da IA, em Genebra, o líder mundial defendeu a urgência de regras globais harmonizadas para mitigar os riscos potenciais da tecnologia, com foco prioritário na proteção à infância.
Em seu discurso para representantes governamentais, Guterres enfatizou que a inovação tecnológica precisa de limites claros de segurança antes de ser massificada. Ele comparou o cenário atual com a regulamentação de outros setores voltados ao público infantil. Enquanto brinquedos e medicamentos passam por rigorosos testes de segurança antes de chegarem ao mercado, as ferramentas de IA alcançaram o cotidiano de crianças em ambientes de aprendizado e relações pessoais sem qualquer crivo prévio de impacto psicológico ou social.
Como medida prática, o secretário-geral propôs a criação de um “Compromisso de Segurança Infantil em IA”. Pelo projeto, desenvolvedoras seriam obrigadas a comprovar a integridade de seus sistemas antes de disponibilizá-los a menores. A proposta prevê travas técnicas absolutas contra a geração de imagens de teor sexual envolvendo crianças e o bloqueio imediato de interações em ferramentas conversacionais quando o usuário demonstrar sinais de angústia ou automutilação, redirecionando o atendimento para um ser humano.
Velocidade de adoção e abismo geopolítico
Para ilustrar a velocidade do fenômeno, Guterres apontou que a internet levou 15 anos para atingir seu primeiro bilhão de usuários globais, enquanto a IA alcançou a mesma marca em apenas dois anos. Atualmente, mais de um bilhão de pessoas utilizam sistemas de IA generativa semanalmente, mas o acesso e o desenvolvimento da tecnologia permanecem restritos de forma desigual no planeta.
Um relatório preliminar elaborado por um comitê científico de 40 especialistas da ONU revelou uma forte centralização geopolítica: os Estados Unidos concentram 75% do poder computacional dos 500 maiores supercomputadores voltados à IA no mundo, seguidos pela China, com 15%. Esse cenário acende o alerta para que nações em desenvolvimento não fiquem à margem da nova infraestrutura global.
Riscos de controle e apelos regionais
O debate sobre a desigualdade tecnológica foi ecoado por líderes de outros continentes. O chefe do Conselho Presidencial da Líbia, Mohamed al-Menfi, destacou o isolamento digital da África, que abriga 10% da população mundial, mas detém menos de 2% dos centros de processamento de dados do planeta. Al-Menfi cobrou maior participação dos Estados africanos na formulação de diretrizes internacionais sobre o tema.
Além das questões econômicas, o debate englobou os riscos à estabilidade democrática. O presidente da Geórgia, Mikheil Kavelashvili, pediu a criação de leis internacionais robustas que impeçam o uso político do Big Data e de algoritmos preditivos, evitando que a IA seja convertida em um instrumento de controle totalitário e em uma nova “tirania digital” pelas mãos de autocracias ou grandes corporações monopolistas.

